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O que Haddad e Bolsonaro podem fazer pela economia

Com Fernando Haddad ou Jair Bolsonaro — quais são os cenários mais prováveis para o PIB, o câmbio, os juros e o emprego em cada possível governo
Haddad e Bolsonaro: partidos preferem não declarar apoio a nenhum dos candidatos (Montagem/EXAME)
No domingo 7 de outubro, o Brasil assistiu atônito à apuração dos votos das eleições. Houve surpresas em diferentes níveis. Políticos com décadas de vida pública, como Eunício Oliveira e Romero Jucá, não se reelegeram. Um partido nanico, o PSL, de Jair Bolsonaro, tornou-se o segundo maior da Câmara. E — o que mais mobilizou as atenções — o próprio Bolsonaro chegou perto de liquidar a fatura logo no primeiro turno. Terminou com 46% dos votos válidos, mais do que previam as pesquisas de intenção de voto e longe dos 29% do segundo colocado, Fernando Haddad.

Obra parada em Cuiabá desde 2014: a economia parou de avançar | Chico Ferreira/Futura Press
No mercado financeiro, a surpresa deu lugar à euforia: a bolsa disparou, o dólar e os juros futuros caíram. Os investidores vivem de expectativas, e o recado que eles vêm passando há semanas é que dá para ser razoavelmente otimista com o que vem pela frente. Leia-se: uma vitória de Bolsonaro e, por consequência, da agenda liberal proposta por seu assessor econômico, Paulo Guedes.

Mas, com o que se sabe hoje, dá para afirmar que um candidato seria inequivocamente melhor do que o outro na economia? Mais do que isso: Bolsonaro e Haddad têm condições de resolver os graves problemas que pressionam as previsões do produto interno bruto e fazer o país voltar a crescer? EXAME fez essas perguntas a 18 dos principais economistas do país — alguns ex-ministros e ex-secretários de governo.

Duas consultorias, a MB Associados e a 4E, traçaram cenários do que poderia ocorrer na economia em caso de vitória de Bolsonaro ou de Haddad. Também foram ouvidos 12 analistas políticos, que ponderaram quais são as chances de eles conseguirem tirar suas propostas do papel. Um resumo da conclusão geral: é possível que a economia brasileira saia de uma vez da recessão e de fato avance nos próximos quatro anos, mas os riscos, tanto no caso de um governo Bolsonaro quanto numa eventual administração Haddad, são relevantes.

O Brasil está em meio a um ciclo econômico que, embora seja difícil de lembrar na turbulência, tem seus pontos positivos. As contas externas estão equilibradas. Parte disso se deve à recessão, que reduziu as importações e levou as empresas a exportar mais. Mas, além disso, as reservas internacionais são significativas e o país continua recebendo investimento estrangeiro. A inflação, ainda que esteja subindo, permanece sob controle, permitindo ao Banco Central manter o juro básico relativamente baixo (os aumentos projetados à frente são modestos perto das taxas que o país teve no passado).

Por fim, muitas empresas se ajustaram durante a recessão e podem crescer com mais eficiência. Se a economia se recuperar, não precisarão de grandes investimentos para aumentar a produção, já que há capacidade ociosa. “Esse é um quadro favorável à retomada cíclica, que começou no início do governo Michel Temer, mas foi interrompida”, diz Luiz Carlos Mendonça de Barros, presidente no Brasil da fabricante chinesa de caminhões Foton, ex-presidente do BNDES e ex-ministro das Comunicações.

Cercado por denúncias de corrupção, o governo Temer deixou de ter base para continuar aprovando reformas — depois da trabalhista, a próxima da fila era a da Previdência, vital para pôr as contas públicas em ordem. Sem confiança no futuro do governo, as empresas passaram a adiar investimentos e os bancos a emprestar menos. A previsão de crescimento do PIB, de 3% no início do ano, está em 1,3% hoje. “Para a recuperação se consolidar, outras condições devem ser atendidas. Precisamos de uma política econômica confiável e resolver nossa grande fragilidade, que é a questão fiscal”, diz Mendonça de Barros.

Por essa razão, o comprometimento com as reformas e a adoção de outras medidas de ajuste fiscal é o que diferencia as projeções para a economia feitas pelas consultorias. Com o que se sabe até agora sobre as propostas dos candidatos — levando em conta os planos de governo, bem sucintos, as declarações dadas por eles e suas equipes e as informações coletadas pela imprensa —, a MB traçou com exclusividade para EXAME quatro cenários possíveis para 2019 e 2020.

O mais otimista deles prevê a vitória de Bolsonaro e que seu governo conseguirá fazer a reforma da Previdência já no início do próximo ano, manterá o teto para os gastos públicos e colocará em prática o projeto de privatização de empresas estatais. Nesse caso, o PIB cresceria 3% em 2019 e 3,5% no ano seguinte. O dólar desceria para 3,20 reais, a dívida bruta em relação ao PIB cairia para 76% e o juro básico ficaria em torno de 7% até 2020.

Os dois cenários intermediários da MB pressupõem, de um lado, uma previsão mais pessimista para um eventual governo Bolsonaro, em que ele aprovaria reformas, mas com dificuldade, sofrendo grande oposição no Congresso e protestos nas ruas. O outro cenário intermediário seria o de um governo Haddad pró-mercado, que contaria com o apoio do Congresso para aprovar uma reforma mínima da Previdência e estaria comprometido com o controle de gastos públicos. Nos dois panoramas, o PIB cresceria em torno de 2%, o dólar ficaria entre 3,70 e 3,80 reais em 2020 e a dívida continuaria a crescer (o aumento seria maior num governo Haddad, segundo a MB). A maior diferença está nas estimativas para a inflação e os juros, que seriam maiores com Haddad devido à volta de medidas de estímulo estatal à economia.

Votação da reforma trabalhista: o Congresso está mais fragmentado | Zeca Ribeiro/Agência Câmara
Já a projeção mais pessimista é a de um governo Haddad que seguisse o que está escrito em seu plano de governo — que, em resumo, diz que o ajuste fiscal será feito quando a economia crescer e que, portanto, é preciso aumentar os gastos públicos no curto prazo, em vez de cortá-los. Não há menção à reforma da Previdência — já em reuniões privadas com profissionais do mercado financeiro Haddad tem reconhecido a necessidade de reformas. Esse cenário seria um desastre para a economia nas estimativas tanto da MB quanto da 4E. O país voltaria à recessão, o desemprego e a dívida aumentariam, o juro passaria novamente dos 2 dígitos, o câmbio ficaria acima dos 4 reais e a bolsa cairia 40%.

Essas previsões são corroboradas pela percepção do setor produtivo. Numa pesquisa exclusiva para EXAME feita pela consultoria de gestão BTA com 404 presidentes, conselheiros e diretores de grandes empresas, 62% deles disseram estar otimistas ou muito otimistas em relação ao Brasil se Bolsonaro se tornar presidente. Para 56%, o impacto nos resultados das empresas seria positivo, porque o dólar cairia, haveria um aumento da confiança e um ambiente propício para a realização de investimentos.

No caso de Haddad vencer, a parcela de otimistas e muito otimistas soma apenas 4%. Além disso, 51% preveem impactos negativos nas empresas, dada a possibilidade de mais intervenção estatal na economia, revisão da reforma trabalhista (algo já defendido pelo candidato petista), alta do dólar e aumento do desemprego. “O Bolsonaro conta com o benefício da dúvida e também com a boa vontade do mercado financeiro. Isso dá uma ajuda na largada”, diz Juan Jensen, economista da 4E.

O empurrão do mercado ajuda, mas não resolve, como se viu na Argentina. Quando Mauricio Macri assumiu a Presidência em 2015, com uma agenda de reformas depois de 12 anos de caos econômico sob o comando da família Kirchner, a reação dos investidores foi eufórica. A confiança era tamanha que, em 2016, o país voltou a emitir títulos de dívida no mercado global, após 15 anos de ausência, e arrecadou 16,5 bilhões de dólares. A bolsa de valores argentina subiu mais de 100% da posse de Macri a janeiro de 2018. Desde então, os problemas brotaram. A demora para recuperar as contas do governo e baixar a inflação reverteu o bom humor do mercado. Para conter a inflação de 40% ao ano e evitar a fuga de investimentos, o Banco Central argentino elevou a taxa de juro para 60%.

As dificuldades provocaram uma crise e levaram o país a pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional. A situação brasileira é diferente, mas o novo governo precisa mostrar a que veio — e rápido. “O problema fiscal é tão grave que os dois candidatos terão a obrigação de convencer a população da necessidade de reformas”, diz Antônio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento. “Se não fizerem isso, qualquer governo vai ficar parado por quatro anos.”

Na visão da MB, os cenários pessimistas são os que têm a maior probabilidade de vingar — mas note que o cenário ruim num governo Bolsonaro é muito melhor do que o pior cenário num governo do PT. Se Bolsonaro for eleito, o risco de ter dificuldades para fazer reformas é de 70%, nas projeções da consultoria. Já o risco de Haddad fazer um governo desastroso na economia é de 80%. Um motivo é a dificuldade de obter apoio no Congresso. “Por causa da polarização e de resistências até mesmo em suas bases, ambos teriam uma governabilidade complicada”, diz Alessandra Ribeiro, economista da Tendências Consultoria.

O Congresso que os votos do último dia 7 formou para 2019 é ainda mais fragmentado do que o atual: o número de partidos representados cresceu de 25 para 30. Isso significa que o novo presidente terá de fazer mais alianças para aprovar mudanças que precisam do Legislativo. Bolsonaro, que passou boa parte da campanha alardeando que não fecharia acordos, disse recentemente que vai procurar parlamentares, “individualmente”, para conversar sobre apoios. Os partidos que não foram para o segundo turno estão avaliando quem apoiar, mas a consultoria política Arko Advice fez uma estimativa da base que poderia sustentar Bolsonaro e Haddad. No Senado, ambos teriam 37 senadores, um contingente formado por seus partidos, por legendas ligadas a seus espectros políticos e pelos partidos do centrão, como DEM, MDB, PSD, PRB e outros.

Vida real

Paulo Guedes: o desafio de montar uma equipe renomada | Silvia Zamboni/Valor/Agência O Globo
Bolsonaro saiu fortalecido porque houve uma guinada conservadora no Congresso, com a eleição de 63 deputados de partidos de direita, ante um total de 48 atualmente . “Quanto maior a confluência ideológica entre o presidente e o Legislativo, maior a facilidade de gerência da coalizão”, diz Carlos Pereira, cientista político da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro. Ainda assim, para a Arko, Bolsonaro teria a oposição de 27 senadores, e Haddad, de 23. Já na Câmara a situação de Haddad, numericamente, é mais confortável. Ele poderia ter 302 deputados em sua coalizão, enquanto Bolsonaro contaria com 255, na avaliação da Arko. A oposição seria similar nos dois governos: o petista teria 139 deputados como oposição clara. O capitão, 141.

Para além das projeções, na vida real, nem todos os parlamentares que fazem parte da base de apoio de um candidato votam sempre a favor de suas propostas. O risco de divergências, na opinião dos especialistas, é maior no caso de Bolsonaro. “Ainda é uma incógnita como esse contingente de deputados novatos eleitos pelo PSL vai se comportar na discussão das pautas e, principalmente, nas votações”, afirma Cristina Barros, consultora da MB.

Eleitos sob a força de propostas de cunho moralista, como a defesa da família tradicional, ou impulsionados por algum tipo de corporativismo, o posicionamento de boa parte deles quanto às reformas e ao ajuste fiscal é desconhecido. O caso de Major Olímpio, ex-policial militar eleito senador por São Paulo — e que figura como possível líder do governo Bolsonaro no Congresso —, é emblemático. Ele votou contra a reforma trabalhista e se posicionou contra a da Previdência.

Haddad deve ter dificuldades diferentes. A maior delas será convencer sua base de que é preciso se comprometer com o equilíbrio das contas públicas — e que, para isso, é essencial aprovar uma reforma da Previdência. No entanto, se conseguir paz dentro do PT, espera-se que terá menos dificuldade de passar propostas no Congresso. “Mesmo considerando cenários positivos, os dois serão governos medianos. Há pouca chance de que sejam bem-sucedidos na reforma econômica, na promoção de crescimento acelerado e na implementação de políticas sociais fortes”, afirma Ricardo Sennes, sócio da -consultoria política Prospectiva.

No caso de Bolsonaro, uma dúvida adicional é se ele conseguirá montar uma equipe sólida, caso eleito. Sua campanha foi baseada em ações de baixo custo, como vídeos nas redes sociais e campanhas espontâneas de seus seguidores. A estratégia se mostrou exitosa como alternativa aos 8 segundos de TV que o candidato tinha no primeiro turno. Junto ao Tribunal Superior Eleitoral, Bolsonaro registrou um gasto de campanha de 1,2 milhão de reais. O do PT: 212 milhões. A estrutura enxuta foi suficiente para levar Bolsonaro ao segundo turno. Se chegar ao governo, porém, vai precisar de gente para ocupar cargos-chave, como os comandos de Ministério da Fazenda, Banco Central, Tesouro Nacional e empresas estatais, para ficar apenas no campo econômico.

Hoje, a coordenação econômica de Bolsonaro é de Paulo Guedes, um dos fundadores do banco Pactual e atualmente sócio da gestora Bozano Investimentos. Guedes conta com o apoio de economistas, que ajudam a elaborar propostas para a economia, e de empresários, como Sebastião Bomfim, controlador da varejista Centauro, e Rubens Ometto, presidente do conselho de administração do grupo Cosan. EXAME apurou que um dos planos de Bolsonaro é criar um conselho inspirado no economic council existente nos Estados Unidos desde 1993. A ideia é reunir economistas, empresários e executivos do mercado financeiro que ajudem a formatar pontos importantes da agenda econômica. Procurados, Bolsonaro, Haddad e suas equipes não deram entrevista.

O primeiro teste no Congresso do próximo presidente será relativamente simples, mas ajudará a medir a força do governo. Logo no primeiro semestre, será preciso aprovar um crédito extraordinário de 258 bilhões de reais para custear o pagamento de despesas como os benefícios da Previdência Social e do Bolsa Família até dezembro. Por enquanto, há dinheiro suficiente até junho. Como é uma herança do atual governo, a votação, que necessita de maioria simples, não deverá apresentar grande desafio. A não ser que a oposição já queira dificultar a vida de Bolsonaro ou de Haddad.

O salário mínimo também será uma pauta importante logo de cara. Em abril, o presidente precisará definir o sistema de reajuste. A regra atual prevê o reajuste pela inflação dos 12 meses anteriores mais a taxa de crescimento econômico dos dois últimos anos, com alto potencial de impacto no orçamento da União. A proposta do futuro presidente pode sinalizar seu compromisso com o equilíbrio fiscal.

As provas de fogo, no entanto, serão a reforma da Previdência, que precisa de 308 votos na Câmara e 49 no Senado para ser aprovada, e as privatizações prometidas por Paulo Guedes — no caso de uma vitória de Bolsonaro. Fora do Congresso, o governo também terá repetidas oportunidades de mostrar se está realmente comprometido com o ajuste fiscal. “É fundamental discutir como os candidatos pretendem equilibrar as contas públicas sem contar com receitas extraordinárias. Pretendem rever incentivos fiscais? Como vão fazer o reajuste dos servidores no ano que vem?”, diz Marcos Lisboa, presidente da escola de negócios Insper.

Para Otaviano Canuto, diretor executivo do Banco Mundial, três áreas de revisão do gasto público têm potencial para garantir uma gradual melhora no superávit primário: a reforma da Previdência, a redução da diferença de salários entre o setor público e o setor privado, e o corte das isenções tributárias e de subsídios. De acordo com o Tribunal de Contas da União, as renúncias fiscais somaram 355 bilhões de reais em 2017 — no mesmo período, o déficit da Previdência foi de 270 bilhões. Como mostra o passado recente, mudanças pontuais podem alterar o rumo da economia. Ficou claro também que, sem uma agenda mínima de ajuste fiscal, é impossível fazer o país avançar. Ela não é simples, mas é factível, desde que o compromisso seja esse desde a eleição. Como se vê, há muito em jogo nas próximas semanas. 

Com reportagem de Natália Flach
O risco é parar por quatro anos

Para o ex-ministro Delfim Netto, o desafio do próximo governo é conciliar liberdade e igualdade | André JankavskiDelfim Netto: “O mercado não tem sentimentos” | Renato S. Cerqueira/Futura Press
Antônio Delfim Netto está otimista. Para o nonagenário economista, que ocupou cargos de ministro da Fazenda e do Planejamento durante a ditadura militar, a renovação da Câmara e do Senado mostra o poder de mudança da democracia. Sobre os desafios econômicos do próximo presidente, Delfim acredita que ambos tentarão de tudo para aprovar a reforma da Previdência.

O que a votação do último dia 7 mostrou sobre o Brasil?

Mostrou que não há truque que resista ao voto. A sociedade chegou a acreditar que votar não mudava nada, mas aconteceu o contrário. Diversos nomes históricos da política ficaram de fora. Teremos um Congresso totalmente diferente, mesmo depois de deputados e senadores terem feito uma reforma, montada para autopreservação.

Foi uma vitória da direita?

Direita e esquerda são apenas sinalizações de trânsito. O liberalismo se apropriou dos grandes objetivos da esquerda. A grande diferença da esquerda era a igualdade. Agora, todos querem igualdade, mas também querem a liberdade. O desafio atualmente é combinar valores que não são inteiramente conciliáveis. Liberdade total mata a igualdade. Igualdade total acaba com a liberdade. Portanto, se a sociedade quiser os dois valores, é necessário combiná-los. No entanto, tanto o sujeito que quer liberdade quanto aquele que quer igualdade precisam comer. Para isso, é necessário que o país tenha um método eficiente para produzir. É imprescindível aumentar a produtividade e a eficiência do Brasil.

Qual é a chance de o próximo governo fazer a reforma da Previdência, tida como essencial para sanear as contas públicas?

A reforma da Previdência é certa. A situação fiscal é tão grave que os dois candidatos terão a obrigação de convencer a população da necessidade de reformas. Sem o equilíbrio fiscal, o país vai ficar quatro anos parado. Mas o problema é que, até agora, um [Haddad] nega a necessidade de reforma e outro [Bolsonaro] não dá detalhes do que pretende fazer.

Por que o mercado escolheu Bolsonaro, mesmo com a falta de detalhes sobre suas propostas?

O mercado conhece o programa de governo do PT e sabe que ele vai levar inexoravelmente ao desastre. Ao mesmo tempo, não conhece o do Bolsonaro. Para onde você construiria uma ponte: para um lugar onde você sabe que vai morrer ou para outro em que existe uma chance de sobrevivência? E eu discordo desse pensamento de que o mercado pensa, reage ou tem sentimentos. É uma mistificação. O mercado é formado por um bando de especuladores que querem ganhar dinheiro no curto prazo.

Para ter chance, o PT vai ter de mudar o discurso?

As posições já estão mudando rapidamente. O Haddad fez uma manifestação assumindo a social-democracia e a revogação da ideia de Constituinte. O Bolsonaro também negou a possibilidade de uma nova Constituição feita por notáveis. Não precisamos de uma Constituição nova, mas que a antiga seja verdadeiramente respeitada.
“O Brasil perdeu importância”

Enestor dos Santos: o modelo protecionista do Brasil breca o desenvolvimento | Divulgação
Outros países da América Latina progrediram mais nas últimas décadas, segundo Enestor dos Santos, economista do banco espanhol BBVA | Leo Branco, de Madri

A rotina de trabalho do gaúcho Enestor dos Santos, principal economista do banco espanhol BBVA para a América Latina, reflete a visão no mínimo cautelosa dos estrangeiros sobre a situação do Brasil. Quando foi contratado em 2008, Santos cuidava exclusivamente das análises do que acontecia por aqui. Em dez anos, passou a dedicar mais tempo ao estudo de outros países da América Latina, como Colômbia e Peru. Na entrevista a seguir, concedida na sede do banco, na zona norte de Madri, Santos diz por que acredita que o próximo presidente, não importa quem seja, terá dificuldade para fazer o Brasil voltar a ganhar relevância internacional.

Como a economia brasileira se comportou em relação à dos demais países da América Latina nas últimas décadas?

O Brasil perdeu importância na América Latina. É um dos países latino-americanos que menos crescem. O produto interno bruto brasileiro teve expansão média de 2,4% de 1980 a 2017. Foi uma taxa um pouco maior do que a da Argentina, de 2,1%, mas inferior à de México (2,6%), Peru (3,4%), Colômbia (3,5%), Chile (4,4%) e outros. O quadro não muda se analisamos o crescimento do PIB desde 2003, primeiro ano do governo Lula e momento em que os preços das matérias-primas começaram a aumentar com força, ajudando a economia do Brasil e a de outros países sul-americanos.

Por que o Brasil ficou para trás?

A explicação não está apenas na política ou na corrupção. Muitos países latino-americanos tiveram também crises políticas sérias e escândalos de corrupção, e mesmo assim conseguiram manter o dinamismo da atividade econômica. O problema de crescimento do Brasil está relacionado com seu ultrapassado e insatisfatório modelo de desenvolvimento. Continuamos apostando em proteger excessivamente o produto nacional da concorrência estrangeira como receita para geração de riqueza e de emprego. Há evidências de sobra de que esse modelo econômico não funcionou. O Brasil precisa abrir a economia e apostar no aumento da concorrência como mecanismo de redução dos -custos e de aumento da produtividade.

A situação pode mudar?

É difícil encontrar motivos para acreditar que esse quadro de baixo crescimento mudará. É verdade que os mercados não vão deixar margem para titubeios na política fiscal: o vencedor terá de apresentar um plano de ação e anunciar medidas para reduzir o problema fiscal. Não fazê-lo significaria criar as condições para uma nova recessão. Mas a polarização política deve impedir a aprovação de uma reforma da Previdência ambiciosa, além de criar um risco de instabilidade institucional.

Há risco de a estagnação na economia brasileira afetar outros países da região?

Uma estagnação ou uma nova recessão no Brasil não seria uma boa notícia para nossos vizinhos. Mas a maioria dos países vai continuar crescendo independentemente do que acontecer no Brasil. Foi o que ocorreu em 2015 e 2016. Esse é outro sintoma da perda de importância da economia brasileira.


Fonte: Revista Exame

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Ebahia News: O que Haddad e Bolsonaro podem fazer pela economia
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